A obra de arte que se inscreve cada vez mais no fluxo da vida contemporânea, da sociedade e do locus urbano, produz toda uma abertura de contatos, influências e registros novos que se equacionam dentro dela. Longe por tanto da liberdade absolutista de ateliê, ou melhor, da independência ou pureza modernista, já que não é só o lugar da obra de arte o que se move, mas também a sua intrínseca natureza, cada vez mais contaminada, mais política. De fato, se a cidade pode-se considerar analógicamente como uma "escrita em maiúsculas" segundo uma idéia de Platão, o artista de hoje fez da cidade não só um novo habitat da obra como uma outra escrita: cidade-suporte para inscrever imagens-acontecimento.
Se por um lado a cidade-mercadoria e a produção social do espaço são o inevitável pano de fundo de nossas urbes, pelo outro, a pesar da categoria cultural do espaço público ter sido tão fragmentado e quase dissolvido -é difícil reconhecer às vezes uma civitas dentro da cosmópolis- o espaço público da obra de arte ainda tem uma vida democrática estreitamente simbólica, uma importante presença visual a desenvolver. Estamos numa área cada vez mais limítrofe, entre o site specific e a arte pública, onde a obra autoral é redefinida pelo imaginário do lugar e o número de instâncias que entram em jogo, ora sociais, ora econômicas, ora políticas. O que estabelece também outro retrato epocal do artista, e o que é mais instigante, uma redefinição da poética artística. As maquetes de Regina Silveira apresentam -como ponta de icebergue- uma determinada posição dentro de uma trajetória. São construções documento de uma poética com um grande envolvimento com a arquitetura -como estrutura de linguagem ou como preocupação cultural-, seja num âmbito exterior ou interior. Mas, ao mesmo tempo, esses inequívocos projetos arquitetônicos (feitos a posteriori das obras) são também poemas-objeto de grande escala, quimeras visuais com dimensões espaciais, sempre com diferentes planos de efetivação e cronologia, já que, como se sabe, bem depois da configuração estética que se deriva da concepção autoral, o processo final de produção de qualquer trabalho não só envolve equipe e outras pessoas públicas (as diversas aproximações técnicas), como também variadas possibilidades de intercessão ou de conflito até a sua realização real(as operações-negociações da poética). Mas, até onde pode chegar o artista, qual é seu campo de manobra neste contexto? São interrogações que revelam um território de difícil equilibro, quase inédito. Assim, projetos como os preparados para a N. York Public Library, o Memorial do novo cemitério israelita de São Paulo, a estação e o túnel do metrô de Vila Madalena, a arquibancada Tobogão do estádio do Pacaembu, ou a caixa d'água Cor Cordis de Arte/Cidade, são obras-experiências que lidam com um conjunto de questões nada formais, pois cada obra -além de sua própria leitura do espaço- tem suas próprias perguntas lingüísticas, seu feixe cultural de sentidos, assim como um enigma imagético a ser compartilhado. Em resumo, trata-se sempre da relação da artista com a cidade: sintonização crítica com as forças em jogo no meio urbano (o moto contínuo do desejo infinito e a produção permanente), re-interpretação do labirinto da memória e do presente, meditações espaço-temporais in situ e ativação da experiência não passiva da obra de arte. Trata-se de instaurar outras estratégias de representação, de entranhar uma nova visualidade no espaço metropolitano, o que as maquetes e desenhos revelam através do cerne constitutivo e expandido da poética de Regina Silveira.Montejo Navas, Adolfo. "In Situ". In Regina Silveira "In Situ", Centro Cultural São Paulo, SP, 2004.
Projeto para o Museu de Arte Contemporânea de Monterrey (MARCO), México
TODAS LAS NOCHES é uma instalação ambiental e temporária, criada especificamente para o conjunto de quatro salas que confina com a área central da fonte, no andar térreo do Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, México (salas 5A, 5B, 5C, 5D). Neste projeto, o tema é o próprio design arquitetônico de Ricardo Legorreta para o MARCO, inaugurado em 1991. O acontecimento são as sombras, negras e opacas, que descem pelas paredes e revestem todos os elementos em seu caminho, projetando a arquitetura do museu sobre si mesma.
Em TODAS LAS NOCHES o conjunto das salas está conceituado como caixas sem teto, para abrigar as projeções sombreadas. Nestes espaços, teoricamente descobertos, as paredes, os volumes e os vazados servem de anteparo`a iluminação (também teórica) que, vindo de cima, incide sobre todo o conjunto, sempre da esquerda para a direita.
As diferenças de inclinação e orientação da luz, aplicadas`as salas divididas em pares (5A-5D e 5B-5C) sublinham o caráter artificial e arbitrário das duas fontes luminosas, rebatidas em espelho, ou seja: a luz vem de frente e mais baixa ( 25' em relação ao piso) para as salas de acesso com as portas de grades (5A-5D), e de trás e mais alta (41' em relacão ao piso) para as salas contíguas aos espaços externos e ao Patio Naranjos (5B-5C).
A mixagem das duas situações luminosas conflitantes se localiza nas portas: por uma delas penetra uma sombra alongada no chão da sala contígua (porta entre as salas 5A e 5C), e por outra, é a luz da abertura que invade o lado mais escuro da sala vizinha (porta entre as salas 5B e 5A).
No interior das caixas de sombras, as únicas presenças concretas são algumas peças do mobiliário usual do museu (bancos, bases, vitrines), deixadas vazias e sem função, mas estrategicamente dispostas de modo a colidir com as sombras esticadas e noturnas dos elementos arquitetônicos mais pregnantes (esfera, coluna, e grades).
A operação poética que fundamenta TODAS LAS NOCHES é a transposição de recursos de desenho arquitetônico em perspectiva paralela - convenção gráfica utilizada aqui em sua versão digital-para o espaço real da percepção. Neste projeto, a intenção do deslocamento é a de tornar mais agudo o paradoxo de experimentar, na escala do corpo, o enxerto de espaços geométricamente construidos e fantasmagóricos, em confronto com os modos usuais e mais fluidos de ver e percorrer os espaços-tempos da realidade.
Os significados implicados em TODAS LAS NOCHES são recorrentes em meu trabalho. Eles incluem considerações sobre as imagens projetivas e as funções da representação visual, com foco naquelas que pertencem`a categoria dos índices, como as sombras. Também estão relacionados`as problemáticas do vazio e da ausência, esses dados da visualidade que, historica e filosoficamente, sempre estiveram conectados aos espaços escuros e`as sombras projetadas.
De modo mais específico o projeto se inscreve em meu interêsse recente em empregar os códigos do desenho arquitetônico na contra-mão de suas funções usuais de viabilizar espaços e construções possíveis.
Algumas obras anteriores podem servir de lastro para o entendimento do atual projeto:
TODAS LAS NOCHES teve a colaboração técnica do arquiteto Claudio Bueno, do NUTAU-Núcleo de Tecnologia, Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde realizou a maquete eletrônica (em programa 3DStudio) e o site com o projeto e a visualidade prevista, mais as indicações geométricas e medidas necessárias para construir a instalação in situ. (www.usp.br/nutau/reginasilveira)
O trabalho deve ser produzido na forma de um grande recorte em vinil auto-adesivo (preto opaco), conforme o modelo fornecido. Algumas sombras - curvas e mais detalhadas - necessitam ser cortadas por plotter (as sombras da esfera, da coluna e das grades). Contudo o projeto, quase em sua totalidade, pode ser replicado no espaço real através de operações manuais, para medir, recortar e aderir o vinil.
Uma firma especializada em sinalizações comerciais pode produzir TODAS LAS NOCHES, sob a supervisão direta da artista, com assistentes.
Complementações necessárias no ambiente, a serem realizadas previamente, são:
A iluminação geral, para todos os ambientes, deve ser difusa e forte, de modo a evitar o conflito entre as sombras reais e as inventadas.
Proyecto para el Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey (MARCO), México
TODAS LAS NOCHES es una instalación ambiental, creada especialmente para el conjunto de las cuatro salas vecinas al área central con la fuente (salas 5A, 5B, 5C y 5D), en la planta baja del Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey, México. En esta instalación, el tema es el propio diseño arquitectónico de Ricardo Legorreta para MARCO, inaugurado en 1991. La intervención propuesta para esas salas está constituida por las sombras, negras y opacas que, bajando por las paredes, revisten todos los elementos en su percurso y proyectan la arquitectura del museo sobre si misma.
En TODAS LAS NOCHES el conjunto de salas se conceptua como cajas sin techo que abrigan las proyecciones sombreadas. En esos espacios, teóricamente descubiertos, las paredes, los volúmenes y los vacíos sirven de anteparo a la iluminación (tambien teórica) que, viniendo desde lo alto, incide sobre el conjunto, con orientación izquierda-derecha.
Las diferencias de inclinación y orientación luminosa aplicadas a las salas divididas por pares (5A-5D y 5B-5C) subrayan el carácter artificial y arbitrario de las dos fuentes luminosas elegidas y situadas en disposición espejada, una delante de la otra.
De esta manera la iluminación de las salas delanteras (con las puertas de rejas, 5A y 5D) viene desde el frente y más baja (25' en relación al piso), a la vez que en las salas del fondo (contiguas al Patio Naranjos y a los espacios externos del museo, 5B-5C) llega desde atrás y de lo alto (41' enrelación al piso).
La mezcla de las situaciones luminosas en conflicto se localiza en dos de las puertas que conectan interiormente los espacios: una de ellas deja penetrar una sombra alargada sobre el piso iluminado de la sala siguiente (puerta entre las salas 5A y 5C), en cuanto la iluminación que proviene del vacío de la otra puerta invade el lado más oscuro de la sala vecina (puerta entre las salas 5B y 5A).
En el interior de las cajas de sombras las únicas presencias concretas son algunas piezas del mueblaje común del museo (bancos, bases, vitrinas), dejadas vacías y sin función, pero estratégicamente dispuestas para entrar en colisión con las sombras estiradas y nocturnas de los elementos arquitectónicos más relevantes (esfera, columna y rejas).
La operación poética que fundamenta TODAS LAS NOCHES es la transposición de las convenciones del dibujo arquitectónico en perspectiva paralela- aqui utilizado en su versión digital- para el espacio real de la percepción. La intención de este dislocamiento es hacer con que sea más aguda la paradoja de experimentar, en la escala misma del cuerpo, la inserción de espacios fantasmagóricos geométricamente construidos, distinta de los modos más fluidos y usuales de ver y pasear por los espacios-tiempo de la realidad.
Los significados implícitos en TODAS LAS NOCHES son recorrencias en mi
trabajo, pues incluyen consideraciones sobre las imagenes proyectivas y las
funciones de la representación visual, especialmente las que pertenecen a la
categoría de los índices, como las sombras. También se relaciona a las
problemáticas del vacío y de la ausencia que, en cuanto datos de la
visualidad, siempre estuvieron, histórica y filosóficamente, conectadas con
los espacios oscuros y las sombras proyectadas.
Más específicamente, el proyecto resulta del interés reciente
por el empleo de los códigos del dibujo arquitectónico, invirtiendo sus
funciones usuales de proveer indicaciones para construcciones posibles.
Algunas obras anteriores pueden servir para el entendimiento de este proyecto:
TODAS LAS NOCHES tuvo la colaboración técnica del arquitecto Claudio Bueno, del NUTAU/USP (Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), quien ha realizado la maqueta electrónica (en el programa 3D STUDIO) y el site con la visualidad prevista, más las indicaciones geométricas necesarias a la construcción de la instalación in situ. (www.usp.br/nutau/reginasilveira)
La instalación debe de ser producida como un grande recorte en vinil auto-adesivo, de acuerdo con el modelo, medidas y indicaciones. Algunas partes necesitan ser recortadas con plotter ( las sombras de la esfera, la columna y las rejas). Casi en su totalidad el proyecto puede ser replicado en el espacio real por operaciones manuales de medir, cortar y pegar el vinil.
Una firma especializada en señalización comercial puede producir TODAS LAS NOCHES, bajo la supervisión directa de la artista, con asistentes.
Complementaciones necesarias en el ambiente, a seren hechas con antelación:
La iluminación general para todos los ambientes debe de ser difusa y fuerte, para evitar conflictos entre las sombras reales y las inventadas.
A primeira grande esfera, já existente e feita em concreto, encontrei como elemento arquitetônico peculiar no Museu de Arte Contemporânea (MARCO) de Monterrey, no México. Equilibrando-se no alto do ângulo das paredes que encerram os espaços expositivos no andar térreo, a esfera era uma visualidade forte no grande pátio interno, com a supreendente fonte rasa onde a água jorra de um cano, a intervalos regulares.
Quando planejei a obra ambiental Todas las noches (1999), específica para aquele museu escultural desenhado por Ricardo Legorreta, o próprio museu, sua arquitetura e mobiliário foram tema e o suporte de meu projeto (em www.usp.br/nutau/reginasilveira). Nessa obra, planejei encher de sombras os espaços internos das quatro salas de exposições localizadas abaixo daquela grande esfera suspensa, sem qualquer outra presença que o mobiliário do próprio museu, que também cobri com as projeções de sombra. Na maquete digital, a fonte de luz (teórica) atravessa o teto parcialmente aberto da primeira sala e projeta no pilar e no chão a sombra da esfera. O projeto não foi realizado, possivelmente, porque propunha enegrecer aquelas salas com um total de quase 1.800 metros quadrados de sombra –mas aquela esfera associada aos espaços sombrios aparentemente se plantou na minha mente, como uma espécie de fantasma obsessivo. A esfera fez-se presente em novos trabalhos que foram sendo realizados logo em seguida.
A instalação Equinócio foi que criada especialmente para o espaço das Cavalariças no Parque Lage, Rio de Janeiro, no final de 2000. Depois de fazer retirar os tijolos que vedavam uma rosácea no alto da sala, para revelar um vazio arquitetônico redondo a 9m de altura e com 1,80m de diâmetro, concebi uma esfera que teria o mesmo diâmetro da rosácea e que seria o sujeito de uma espécie de acontecimento cósmico no tempo. Construída em duas metades, uma branca e outra preta, portanto metade luz e metade sombra, ela mesma já era uma representação do equinócio. Em minha imaginação, a esfera teria atravessado aquela abertura, rolado para o chão e arrastado consigo sua grande e escura sombra equinocial. Equinócio ocupou a sala central do espaço das Cavalariças, com 9 x 9 metros e alcançou 8,50m de altura. A esfera foi construída em madeira oca, pela superposição rigorosa e calculada de dezenas de aros recortados. A sombra triangular, descendo nas paredes e vindo pelo chão até a metade escura da esfera, foi pintada com tinta industrial de cor negra opaca.
No Equinócio re-montado para a exposição “Estratégias para Deslumbrar”, organizada pelo MAC-USP na Galeria do SESI, que ocupa o número 2001 da Avenida Paulista em São Paulo, a esfera ganhou novas associações. Separada do lugar anterior e de sua relação com o vazio redondo daquela arquitetura, o grande sólido branco e preto me serviu para inventar um diálogo visual com o seu próprio duplo imaterial: uma outra esfera, semelhante em aparência e tamanho, mas feita de pura luz. Um globo dicróico, com a imagem de uma esfera e um projetor helicoidal com zoom, propiciavam a ilusão da similaridade, ajudada pela grande sombra realizada em vinil auto-adesivo que ligava as duas esferas, a de madeira e a projetada no alto de uma parede.
Recentemente realizei A Lição, uma instalação de grande porte, pensada como um agigantamento daquele conjunto de sólidos geométricos que, distribuídos numa composição específica, formam a natureza morta típica das primeiras aulas de desenho. A Lição está banhada por uma fonte de luz pontual, situada no chão, quase à frente da esfera. A sombra esférica da bola domina o centro do conjunto de sólidos e ainda se projeta, muito alta, na parede de trás. A fonte de luz, que é baixa e forte, não apenas marca nitidamente as sombras próprias de cada um dos sólidos, mas provoca também sombras projetadas, dos sólidos uns nos outros e do conjunto de sólidos sobre o chão e paredes. A obra foi instalada na Galeria Brito Cimino, em São Paulo, com a intenção expressa de ocupar desmesuradamente aquele espaço e cobri-lo com as sombras projetadas aderidas às paredes.
Em A Lição a esfera, em conjunto com seus pares sólidos, oferece ao observador um desvio de escala. A natureza morta é penetrável e desde dentro as peças se percebem como grandes volumes, bastante negros, ininteligíveis e sempre maiores do que o corpo. A escala da representação só pode ser dominada de longe e do alto. O título dessa obra alude também à lição de Cézanne a Émile Bernard quando, numa carta, lhe diz que a visualidade deve ser traduzida por meio das formas simples, como a esfera, o cubo, o cilindro e o cone, uma recomendação que tomei à risca para a construção de uma hipérbole irônica.
Silveira , Regina, "Esferas". In "Projeto", revista "Galáxia", nª 4, São Paulo, EDUC, 2002, pp. 241-253.
